sábado, 29 de agosto de 2015

Sobre fichamentos e minha experiência

Fichamentos e minha experiência

A novidade

Aguardei por mais de uma década para iniciar meus estudos na filosofia, antes disso me qualificaria como um entusiasta!  Ao se deparar com a rotina de estudos, foi novidade conhecer a prática de fichamento. Hoje mesmo ainda no primeiro ano, não me imagino sem eles!
Como algo tão vital escapa em tantos videos do youtube, onde autores e suas obras são estudadas mas a rotina para estuda-los de melhor forma não é discutida!
Há sim videos que passam muito rapidamente, por que há uma particularidade nesse assunto: não é uma fórmula fechada, cada um faz de um jeito!
Quando percebi isso, lembrei-me de minha experiência profissional quando nos deparamos com um modo de trabalho que esta sujeito a particularidades! Em questões assim, em um ambiente de trabalho é necessário entender por que há particularidades e não impor para ir depois se perdendo do propósito e ter um sistema ou modo todo remendado!
Consultando até videos em outros idiomas empreendi minha pesquisa e fiz algumas descobertas!

O que é um fichamento

O contato com os textos filosóficos será sua rotina, mas além de ler precisa registrar o que lê, o que lhe causou, se não se convenceu... Acha complicado? Quando estiver lendo um filósofo será natural ter insights, mesmo dúvidas ou pontos cegos no texto. A ideia de que se lembrará dessas  impressões é forte, mas dentro da rotina de estudos e esforço para assimilar o texto não é o mais indicado e pode se tornar uma barreira para não se disciplinar (não sou adepto de muitas atitudes contemporâneas alimentadas na pedagogia, ok?). Mesmo sendo hábil em pensamento (é muito comum antes de iniciar a graduação já ter intimidade com algum filósofo ou escola de pensamento) terá que lhe dar com exigências curriculares, sua capacidade de atenção e ainda a apropriação do que lê! Fora que não terá apenas um livro para ler, o que dificultará muito ter tudo de prontidão! O fichamento é o alicerce para que tudo isso seja feito a contento!

Fichamento não é apenas um resumo. Existem mais própositos para um fichamento!

O fichamento pode ter primeiramente duas finalidades: atenter uma exigência curricular e um aprofundamento do texto! Em meu 1º ano de graduação tive contato com um texto de Edmund Husserl, A Crise da Humanidade Européia. Husserl tem parágrafos longos, desenvolve progressivamente as ideias ou até as modula em um mesmo parágrafo. A prova foi dois meses após ter conhecimento do texto. Meu professor aconselhou um fichamento livre, sem uma tarefa direcionando, não passou nada como "atentem para as tarefas infinitas e afastamento da mundaneidade" não, como estavámos no 1º ano não fez tal coisa, mas ainda assim no texto era necessário marcar e redesenhar os argumentos na tese de Husserl! Isso é o que seu fichamento terá!
O fichamento registra sua leitura/compreensão. Ao ler e assimilar, mesmo que posteriormente progrida na compreensão da obra, e registrando terá muito mais contato com o pensamento escrito! Com esse registro, por exemplo, se no ano seguinte for retornar a um livro já fichado poderá pegar suas fichas e rememorar o que assimilou da obra  COM MUITO MAIS DETALHES do que apenas mentalmente, se não tivesse fichado. Detalhes seus, como você desvelou um argumento! Com suas palavras! Isso pode até lhe poupar de reler grandes partes de um livro! A outra finalidade do fichamento seria para fins especificados, como um exame. Ainda no primeiro ano um outro professor nos indicou Metafísica do Aristóteles, Vol 1, tradução do Reale. Tinhamos alguns pontos para nos atentarmos, a ambiguidade "ser enquanto ser" foi uma. Foi comum a sala discutir sobre esse momento da metafísica aristótelica! Isso não nos coibiu de fazer mais, mas como a prova tinha esse alvo, meu fichamento nesse quesito estava muito mais discriminado para quando eu retornasse à ele para revisar antes das provas já me fosse mais comodo!
É comum, com a prática, fazer notas no fichamento, marcar dúvidas (esperando-se que as resolva), associações livres e até mesmo confrontamentos com o autor!
O fichamento é o registro de sua leitura.
Essa é minha ficha atualmente! Na ocasião de criação ainda não tinha muito contato com as normas ABNT então esta um pouco dissonante com estas! Isso não deve servir de empecilho, comece, arrisque, tente! Mas não precisa ser tudo tão difícil, recomendo que faça como eu: faça um modelo de referência para consultar e padronizar!


Tipos de fichamentos

Quando fui buscar modelos e referências deparei-me com algumas constantes! Para meu uso formulei alguns modelos e usos atendendo minhas particulares, porém percebi usos que não me foram no momento necessários, mas atentei-me como eram mostrados e indicados!

Estrutural/Sinóptico

É o mais simples, o mais pontual e o mais conciso! Consiste em identificar os termos nucleares e anotá-los! Recomendo formular alguma simbologia auxiliar, porque no momento em que escreve a relação entre as palavras é clara e evidente, mas um semestre depois nem sempre isso retorna.
fichamento sinóptico feito por um professor em sala. O texto é "A consciência e a Intencionalidade" do Jean-Paul Sartre
Procure o texto e compare com o que foi anotado!!

Resumo

Concisão, mas em forma de sentenças, com as injunções e inferências que julga necessária para registrar do autor!

Momentos Lógicos

É um fichamento sobre algum dos anteriores, quando já possui a visão macro e micro da obra. A ideia do autor é limitada a uma sentença objetivando formar uma proposição, ideias secundárias podem ou não ser elencadas, mas aqui há uma indicação de como se ligam as ideias, como se seguem. Se um conceito se repete nos §03,06,07 e você os agrupa nessa chave!

Síntese

É comum até mesmo em livros, quando trazem um capítulo resumido a 20 linhas. 

Citação

Pode separar um momento, uma frase e ficha-lo.

Bibliográfico

Seus livros podem ser catalogados, ou os que utilizou. Parece em primeiro momento um trabalho desnecessário, mas é muito comum um pensador reconsiderar ou reformular o argumento em uma edição. Se não tiver esse controle, poderá falar com um amigo sobre um argumento e não entender por que diferem tanto e ao comparar as biografias podem encontrar essa diferença. Por isso é recomendável saber também, quem traduziu, isso pode ter impacto em sua compreensão da obra. Um controle com esses dados é recomendável.

Conceitos chaves

Você em algum momento encontrará autores que criam termos, ressignificam e será de muito comidade, além de sempre ter mais contato com o texto, pinçar esses conceitos e anotar-lhes a conceituação que o autor conferiu, à parte. Com o contato com filosofia antiga, idioma que não domina se mostra convidativo a prática. Eu, quando emprego, marco onde aparece na obra (pg,§).

Anexos

Muito comum algum tipo de quadro ou tabela em textos, eu preferi conforme algum critério particular de comodidade colocar em folhas distintas. Logicamente que indico no fichamento do texto a ocorrência de tal anexo. Parece exagero, mas nem sempre vai julgar comodo carregar o livro somente por causa de uma tabela. E mostra outra praticidade, pode carregar o anexo de forma distinta do conjunto sem se preocupar em ordem ou para uma consulta frequente do conteúdo em específico.

Organize-se, olhando os fichamentos mais de perto

Padronize de forma consistente as informações do livro, a ficha bibliográfica dos livros lhe renderão ideias. Criei um padrão para meu cabeçalho, e até o momento considero satisfatório!
O fichamento registra sua leitura e até suas análises do texto do autor, mas sua utilidade não é em sí mesmo mas em referência ao texto, por isso é importante que seu fichamento possibilite de forma clara reencontrar ao que ele se refere, onde dentro da obra esta o conteúdo originador.
Pata tanto recomendo que se for fazer fichamento parágrafo por parágrafo, identifique-os corretamente, se for página por pagina , da mesma forma! Eu sou adepto de fazer a cada parágrafo, então verá que em minha imagem principal padronizei sempre em uma linha marcar o parágrafo (§) em sua numeração ordinal dentro de um tópico. E já adianto, há autores que numeram de forma continua em toda obra e me perguntei: E agora? E respondi: marco os dois, o meu modo e o dele, sendo que a numeração dele identifico entre parenteses: §15(42). Exagero? Não, por que um professor ou colega pode vir a comentar o texto pela numeração do autor, ou por ser o terceiro em um determinado tópico e você terá rapidez em localizar em qualquer forma.
No círculo mais ao alto a identificação do fragmento, na elipse temos minha númeração continua e entre parenteses a do tradutor!


  • Um tipo de texto tem uma particularidade que deve considerar: os fragmentos. Os fragmentos possuem uma numeração para localização que é muito comum autores utilizarem. Deixei um recuo padrão onde localizo essa numeração. Se ler algum comentarista de Platão, ele sempre colocará algo como DK489a ou ainda DK1449b24. Quando ficho um texto que possue essa particularidade também registro. E adianto, na filosofia antiga é o padrão. Imagem acima tem um exemplo
  • Identique de forma clara a ordem entre as folhas do fichamento. Eu como tenho mais de um modo já coloco o tipo de fichamento na numeração, e ainda coloco em cada folha, ao final do fichamento qual a numeração total, afinal se vier a perder um folha perceberei.
  • Uma notação que se mostrou prática foi a conciliar coordenar página com documento eletrônico. Não será raro ler um livro e o arquivo digital deste, até mesmo um pdf, nesses casos anoto a página e página digital (pg;@). Até o momento nem todos os arquivos tem perfeita relação, algumas lojas digitais até oferecem produtos assim, mas já passei por esta dificuldade e hoje é o meu normal em casos de arquivo e livro na leitura!
Primeira e última página do fichamento do Livro I de A República de Platão. As folhas intermediárias contém a numeração total.

Concluindo

Busquei mostrar como fiz e principalmente mostrar de forma clara como usar e controlar!
Há uma blibliografia que pode lhe apresentar de forma melhor a feitura de um fichamento, dentre a grande maioria dois eu tive contato:
Metodologia Filosófica, Dominique Folscheid, Jean Jacques Wunenburger
 e
Como estudar filosofia. Clare Saunders, David Mossley, George MacDonal etc
Ainda há um que me foi recomendado, porém não o peguei em mãos é
Introdução ao pensamento filosófico. Karl Jaspers
Livros de metodologia sempre possuem orientações para fichamento, mas os considero superficiais
Também livros de lingua portuguesa para universitários possuem indicações, mas ainda reitero, nesse caso vá aos livros para os estudantes de filosofia!
Bons estudos!